domingo, 6 de novembro de 2016

Nem toda poesia é escrita

Tinha uma ideia fluindo
Uma nuvem no céu do quarto sem abrir a janela
Tinha uma ideia fluindo
Levantei-me, como se fosse visita
Educadamente retiro-me do quarto
(nunca sem pedir licença)
E pego um copo d'água
(é que minhas ideias tiram o fôlego).
Pois, para minha surpresa
Sem despedida, a ideia foi embora
Pouco me importa
Um mosquito sobrevoava a cabeça
Tinha um zumbido alto
Deu-se um poema silente no quarto
Mais ou menos assim:







Vazio, sem pensamentos.
Calou a boca de quem falava
Acalmou a mente de quem pensava
Alcançou a alma de quem tinha

Nem sempre se escreve uma poesia.

Para o (meu) amor

Eu queria saber amar-te um pouco menos
Que coubesse um tanto no que digo
Mas não seria o quanto mais bonito
Que dizer que amo-te, assim:
Por menos do que em breve amarei
Por mais do que roga o infinito.

Sobre as coisas, a conotação e a acomodação de regras

Falávamos sobre as leis:

- Então você quer me dizer que nesse livrinho existem regras?
- Sim, regras que devem ser cumpridas.
- E se eu não quiser cumprir?
- Sofrerá uma pena.
- Então são ordens?
- Indiretamente.
- A quem devo tamanha obediência?

(...)

Esta sou eu, aos 25 anos
Falando com outra (que sou) criança adulta
Mora em mim a inocência de 20 anos atrás
É uma menininha ainda sem nome ou noção das coisas
Porque a noção das coisas o mundo ensina
Não existe noção das coisas
Não há denotação na coisa
A coisa é só decorativa
Todas as coisas são cortinas de enfeite para a vista das janelas dos olhos dos outros.
Você não olha para coisa alguma
Sem que tenham dito para você que aquela coisa é alguma outra coisa que já tem nome e sentido.

(...)

- Mas e se eu quiser dar outro sentido nas coisas?
Aí, menina, te aconselho nascer de novo.
- Será que isso é possível?
- Vou contar um segredo: há um ventre novo a cada passo seu. Pensar é fértil; ser é o parto.

E assim nasço de novo desnuda pra vida.

domingo, 8 de novembro de 2015

Gritaria

Minha alma grita
 Numa rua escura
Ninguém escuta
 A gritaria
Toda vez que a alma gritava
 O corpo sorria
Minha alma grita
Escandaliza
Se eu pudesse seria
Meu corpo                            
                                         ser
Minha alma
                                         ia
De livro em livro
Eu me livro
Se pudesse
Sempre
Livraria
Com seus olhos - que você me coma
Com sua boca - eu entro em coma

Conversa de bar

Sabe esse copo d'água ? Está assim, metade cheio, metade vazio, já há tantas horas que nem vi o tempo passar. Nem vi o céu se pintar de rosa, amarelo, vermelho, e de repente entardeceu. As pessoas que estavam à minha volta já não estão mais. Parece tudo vazio. Acho que esse lugar fechou. Garçom, espera! Espera, preciso pagar a conta. Garçom, fica com o troco, eu preciso correr e mostrar pra ela tudo isso, não sei como, está escrito nesse guardanapo, é que se eu disser sou capaz de atropelar tudo, vou encher de vírgulas e reticências e já precisa de mais vírgulas e estou engasgando e desse jeito vou sorrindo à toa prendendo o olhar na parede como se fosse um quadro mas não de natureza morta natureza viva bem viva feito as cores da íris e repletas de arco íris dos olhinhos dela. Sinto as mãos suando, o copo escorregando ai meu Deus quase cai todo mundo já percebe que eu estou apaixonada e eu acho que isso é intenso demais pra não ser dito agora se a vida é muito curta. Garçom, é curta demais, tão curta que eu nem vi passar o tempo e já nasceu um sentimento e garçom, é ela aqui no telefone, garçom, me ajuda. 
- São setenta e dois reais, eu acho, e eu a amo.
- Setenta e quanto?
- Muito.